Linhas de Investigação

Durante cerca de três anos, a equipa do projecto ARTHE – Arquivar o Teatro dedicou-se a procurar realizar os objectivos traçados e que assentavam em dois pilares da investigação: identificar, mapear e estudar a situação dos arquivos de teatro em Portugal; e, partindo da pesquisa no arquivo do Teatro da Cornucópia e no fundo documental de Mário Barradas sediados na FLUL, desenvolver uma metodologia de pesquisa a aplicar ao estudo dos acervos de 20 companhias de teatro parceiras.

O período selecionado para investigar – anos 70 e 80 do século XX – respondia à identificação da situação vulnerável em que se encontram muitas companhias surgidas pouco antes ou logo depois da Revolução de Abril e incentivou o estudo do teatro dito independente e o programa de descentralização concebido para, finda a ditadura, democratizar o acesso à cultura.

Resgatar informação para conhecer melhor as mudanças políticas, ideológicas, económicas e artísticas introduzidas nas práticas de organização e criação de grupos e companhias, incentivar os cuidados com os arquivos das companhias de teatro hoje existentes e pôr à discussão o papel do arquivo na construção da memória sobre o passado recente e os usos dos arquivos na historiografia e na criação artística são três ações que resumem o alcance da investigação realizada.


Arquivar

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Compreender a situação dos arquivos das companhias de teatro com atividade nos anos 70 e 80 do século XX e inventar modos de as mobilizar para os cuidados a ter com eles foi o principal estímulo para criar o projeto ARTHE – Arquivar o Teatro.

Partindo do estudo do arquivo do Teatro da Cornucópia e do acervo documental de Mário Barradas à guarda da Biblioteca da FLUL, procedeu-se à análise de modelos para o tratamento de arquivos em artes performativas experimentados nacional e internacionalmente e construiu-se um questionário-tipo para descrição do estado dos arquivos das companhias participantes no projeto. A equipa foi, em seguida, em missão de visita de diagnóstico pelo país conhecer in loco os seus arquivos, as condições de armazenamento e cuidado em que se encontram, discutindo a primeira versão do questionário que aceitaram preencher. O conhecimento produzido integra os volumes 2, 3, 5 e 6 da coleção de livretos Arquivar o Teatro e está na base do Guia de Práticas Arquivísticas em Artes Performativas (GPAAP) que fica acessível neste website para uso das companhias e das instituições com atividade nas artes performativas, bem como para conhecimento das entidades do poder central e local com responsabilidades nesta área.

Questionário 2.0

Concebido para uma incursão nos arquivos das companhias parceiras em quatro níveis: Informações sobre a Companhia; Informações sobre o arquivo da Companhia; Descrição do arquivo; Perspetivas para o futuro do arquivo.

Missões

Realizadas no segundo ano do projecto, permitiram conhecer a situação dos arquivos das companhias de teatro parceiras no contexto geográfico e socio-cultural em que  atuam e aferir a qualidade do questionário anteriormente elaborado. Nesse trabalho de campo foi possível explorar a diversidade de situações, carências e estratégias a promover para a salvaguarda e o cuidado dos arquivos.

Dados dos Arquivos

Uma base de dados a partir da análise da informação recolhida nos arquivos das companhias parceiras.


Teatro Independente

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Em Portugal, a importância do 25 de Abril na afirmação do teatro independente produz características distintas a nível europeu. No projeto “ARTHE – Arquivar o Teatro”, aplicámos o conceito de teatro independente como referente ao “conjunto heterogéneo de companhias não comerciais que cresceram no pós 25 de Abril e reivindicavam o teatro como serviço público”. A forma como o teatro independente em Portugal ganha a sua excepcionalidade comparativa, pelo menos a nível europeu, é resultado e espelho, desde logo, da contingência específica de um Estado simultaneamente fraco e autoritário antes da revolução, e programaticamente ambivalente face às artes performativas após a revolução, nunca chegando a estruturar uma nova lei de bases ou política pública de cultura sustentada. Assim, são as companhias de teatro independente que vão estruturar e modernizar o reportório e as práticas teatrais à volta de um programa descentralizador e democratizante que assume como sua responsabilidade e dever, substituindo-se durante alguns anos ao Estado.


Descentralização

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A 3 de maio de 1974, nove dias depois da revolução, Carlos Porto, jornalista e crítico de teatro filiado no Partido Comunista Português e um dos fundadores da Associação Portuguesa de Críticos do Teatro, publica na edição do Diário de Lisboa (DL) “12 pontos sobre o teatro português”, onde apela, entre outras coisas, à “organização imediata de companhias destinadas a servir a província a partir de centros como Porto, Évora, Coimbra, Castelo Branco, Bragança” (DL, 1974: 18).
O plano de “servir a província a partir de centros” é, precisamente, o plano de descentralização teatral que Mário Barradas traz da sua experiência em 1969, como estudante e professor, em Estrasburgo, no Théâtre National de Strasbourg (TNS), que fez parte das políticas de descentralização de André Malraux, Ministro da Cultura de França entre 1959 e 1969. É através desta experiência que Barradas procura promover a descentralização enquanto peça fundamental do processo de democratização, no pós-25 de Abril de 1974 através da instalação de centros culturais ou unidades de produção dramática fora de Lisboa e Porto, financiadas pelo Orçamento do Estado, com quadros próprios e autonomia de ação.
Ainda em 1974, foi criada a Comissão Consultiva para as Actividades Teatrais, incumbida de rever a lei e a política para o teatro e que Mário Barradas integra. Se a proposta de revisão da lei do teatro nunca foi implementada, desta comissão surgiu o Centro Cultural de Évora, inaugurado em janeiro de 1975. No entanto, esta política não é alargada a todo o território como inicialmente previsto. Esta não é uma política consensual, seja a nível governativo, a nível partidário ou no debate entre as companhias de teatro independente. De entre as várias divergências, largo senso, opõem-se o modelo de itinerância das companhias (essencialmente de Lisboa e Porto) pelo território (um modelo impulsionado logo na primeira fase das campanhas de dinamização cultural em 1974/75 e que subsiste ainda na década de 1980), a criação descentralizada de companhias independentes através de financiamento público, ou ainda a criação destes centros dramáticos enquanto estruturas descentralizadas do próprio Estado. Nenhum dos modelos surge como política definitiva dos sucessivos governos provisórios e constitucionais, mas vão antes afirmar-se em sobreposição ao longo dos anos. Descentralizações há muitas.

1974

1976

1978

1980

1982

Porto

Lisboa

Porto: Teatro Experimental do Porto; Seiva Trupe

Lisboa

Setúbal: Teatro Animação de Setúbal

Évora: Centro Cultural de Évora

Caldas da Rainha: Casa da Cultura das Caldas da Rainha

Porto: Teatro Experimental do Porto; Seiva Trupe

Lisboa

Setúbal: Teatro Animação de Setúbal

Évora: Centro Cultural de Évora

Caldas da Rainha: Casa da Cultura das Caldas da Rainha

Viseu: A Centelha

Viana do Castelo: Teatro Estúdio de Arte Realista

Porto: Teatro Experimental do Porto; Seiva Trupe

Lisboa

Setúbal: Teatro Animação de Setúbal

Évora: Centro Cultural de Évora

Caldas da Rainha: Casa da Cultura das Caldas da Rainha

Viseu: A Centelha

Viana do Castelo: Teatro Estúdio de Arte Realista

Faro: Teatro Laboratório de Faro

Vila Real: Teatro de Ensaio Transmontano

Portalegre: O Semeador

Almada: Grupo de Teatro de Campolide

Porto: Teatro Experimental do Porto; Seiva Trupe

Lisboa

Setúbal: Teatro Animação de Setúbal

Évora: Centro Cultural de Évora

Viseu: A Centelha

Viana do Castelo: Teatro Estúdio de Arte Realista

Faro: Teatro Laboratório de Faro

Vila Real: Teatro de Ensaio Transmontano

Portalegre: O Semeador

Almada: Grupo de Teatro de Campolide

Leiria: Teatro da Columbina; TELA - Teatro Experimental de Leiria

Coimbra: Bonifrates

Santarém: Companhia de Teatro de Santarém