ARTHE
Actividades
10 de Abril 2024
Sessão na Cinemateca: O Outro Teatro
O outro teatro ou as coisas são de quem as torna melhores foi apresentado no dia 10 de abril, pelas 19:30, na Sala Luís de Pina da Cinemateca Portuguesa, seguido de uma conversa com o ator Rui Mendes, o realizador Fernando Matos Silva e o arquivista Luís Gameiro, moderada pela equipa ARTHE (Carolina Valente e Ana Bigotte Vieira).
O QUE SE ESCREVEU DO OUTRO TEATRO? (Por Carolina Valente)
O outro teatro ou as coisas pertencem a quem as torna melhores, filme estreado em outubro de 1977 na sede dos Bonecreiros, é uma carta de apoio às companhias de teatro independentes num período em que estas viam o seu trabalho ameaçado. Nos últimos meses de 1976, a Secretaria de Estado da Cultura anunciou alterações na política de atribuições de subsídios, o que prontamente mobilizou os trabalhadores das companhias a manifestarem-se. António de Macedo e Manuela de Moura mostram-nos a origem do teatro independente em Portugal, desde António Pedro e o Teatro Experimental do Porto, até 1977. Várias companhias são entrevistadas e convidadas a falar sobre a sua fundação, o seu programa, as suas dificuldades: a Cornucópia, a Comuna, o Teatro Estúdio de Lisboa, o Grupo 4… No dia 16 de janeiro de 1977, os grupos organizam uma jornada de luta na FIL — o “culminar de uma semana de trabalho” — a que acorrem mais de 12 mil pessoas para apoiar o teatro independente. Ao Diário de Lisboa, a 17 de janeiro de 1977, Rui Mendes, então do Grupo 4, diria que, mais importante que o “apoio maciço do público”, foi “a unidade de 25 grupos de teatro com práticas e ideologias porventura diferentes que vieram aqui mostrar que nós queremos trabalhar”. No final do documentário, António de Macedo e Manuela de Moura informam-nos que esta luta foi bem-sucedida, conseguindo-se alterar o decreto-lei que punha em causa a atribuição justa de subsídios.
No espírito da investigação arquivística a que me tenho dedicado ao longo do projeto, consultei o Portal Félix, base de dados de consulta do património cinematográfico recentemente lançada pela Cinemateca Portuguesa, para descobrir o que se andou a escrever sobre O outro teatro. Não se terá escrito tanto como sobre outros filmes da mesma altura, sobretudo devido à temática tão específica deste documentário. Sobre a antestreia do documentário, diz o Diário de Lisboa de 3 de outubro de 1977 que a sede dos Bonecreiros, em Moscavide, se encheu de pessoas para assistir e, no final, debater. Este evento foi integrado nas comemorações do aniversário dos Bonecreiros. Na conversa, sublinhou-se a “importância da colaboração entre o teatro e o cinema”. N’O Dia de 13 de outubro de 1977 não se reporta sobre a antestreia, mas ficamos a saber que a cópia síncrona do filme estará pronta em breve. A 23 de novembro de 1981, O Setubalense oferece aos seus leitores a ficha técnica e uma sinopse do filme. Ficamos também a saber, através do Portal Félix, que O Outro Teatro foi integrado no programa da Quinzena do Cinema Português Pós 25 de Abril, organizada por um consórcio de cineclubes nacionais, e também que a primeira vez a ser projetado na Cinemateca Portuguesa foi a 26 de janeiro de 1984, por ocasião do 38º Encontro do Cinema Português.
Seguiram-se exibições em 1996, num ciclo escolhido e apresentado por João Lourenço, em 2012, num ciclo dedicado ao realizador, e em 2014, num ciclo dedicado ao 25 de Abril. Apenas um crítico terá assinado textos sobre O outro teatro, José de Matos-Cruz, aparecendo frequentemente citado nas folhas de sala que se encontram no Centro de Documentação da Cinemateca Portuguesa. Deixo um excerto:
“António de Macedo é um desses nomes que, inevitavelmente, teremos de saudar, pela sua constante e exemplar actividade quer na linha de ficção quer na documental, pela peculiaridade dos temas recriados ou das realidades em perspectiva, por vezes com interessantes ligações entre uns e outras… Ora, (…) [n’]”O Outro Teatro ou as Coisas Pertencem a quem as Torna Melhores”, é possível ver explorados esses níveis de referência sobre o conceito do espectáculo e a sua transcrição artística, factual, na biografia e nas vivências daqueles que, no palco, dão alma e expressão ao conteúdo romanesco.”
Matos-Cruz, José de. 1977. «“O Outro Teatro” — novo filme de António Macedo». Diário Popular, 5 de novembro de 1977. Centro de Documentação da Cinemateca Portuguesa.
Estes tipos de testemunhos são de muita importância para o nosso projeto, por nos abrirem uma janela para o sentimento dos intervenientes do teatro em Portugal no período da chamada consolidação da democracia. Pessoalmente, foi especialmente interessante atribuir vozes (e às vezes caras!) a pessoas sobre quem tenho lido ao longo da minha passagem pelo Projeto ARTHE — Luzia Maria Martins, por exemplo, ou Mário Jacques.